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[Arquivo - 003] A Bienal em Solo Goiano

4 de abr.
2 min de leitura

Atualizado: 22 de abr.

Receber a itinerância da Bienal de São Paulo é, antes de tudo, um rito de passagem. Ver o maior epicentro de arte do hemisfério sul ancorar em solo goiano traz aquela urgência pulsante de quem sabe que a capital não está apenas pronta para o mundo: ela já é parte integrante dele. O palco não poderia ser mais emblemático, o MAC, emoldurado pelo traço inconfundível e atemporal de Oscar Niemeyer.

A curadoria nos recebe com precisão cirúrgica. Logo na entrada, as luminárias assumem o protagonismo, fragmentando a realidade em reflexos que nos convidam a reconstruir o olhar. É um exercício necessário de desaprendizagem.

Mas foi no vigor da madeira entalhada que meu coração de Capitão encontrou o seu porto seguro. Nas obras dos povos originários, a ancestralidade não apenas se apresenta, ela reverbera. É a prova tátil de que o brasileiro não "descobriu" a arte, ele a manifesta na própria essência, lapidando a matéria bruta da terra muito antes de qualquer teoria acadêmica. O diálogo entre a estética ancestral e a crueza do nosso Cerrado foi, sem dúvida, o ápice sensorial da experiência.

No entanto, o olhar de quem vive de estratégia e planejamento não consegue ignorar as lacunas.

A exposição é impecável, mas contida. Diante da magnitude que a Bienal representa e da robustez que Goiânia comporta, a sensação é de que nos ofereceram uma fresta quando a cidade já exige janelas escancaradas. O museu de Niemeyer é uma joia, mas Goiânia é um oceano de possibilidades latentes.

Faltou a coragem da intervenção urbana. Nossa capital tem escala, tem repertório e, acima de tudo, tem público. A arte não deve aceitar o confinamento das quatro paredes, ela precisa transbordar para o asfalto, ocupar o cotidiano e provocar o extraordinário no trajeto comum.

Saio do MAC com a alma alimentada, mas com o instinto atento ao que ainda não foi feito. Este primeiro passo foi histórico, um privilégio para nós. Mas que os próximos registros sobre a arte em nossa terra celebrem não apenas a beleza da execução, mas a audácia da escala.

Nossa capital é gigante. É hora da arte ocupar todo esse tamanho.



Diário de bordo - 003, assinado Capitão.




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